Projeto surgiu em 1997 pela internet, mas autores se queixam que foram esquecidos desde que país lançou oficialmente a campanha com Argentina
Quando um dentista especialista em reggae e um amigo com quem ele encontrara pessoalmente apenas uma vez na vida lançaram a ideia, ninguém levou a sério: trazer a Copa do Mundo de volta ao Uruguai, e dali a 33 anos. Quase uma década e meia depois, o que era proposta maluca virou projeto oficial. Mas os autores caíram no esquecimento.
- Fico feliz por ver que nunca antes a possibilidade de trazer a Copa de 2030 para o Uruguai foi tão grande. A Associação Uruguaia de Futebol (AUF) e o governo assumiram a ideia e o mais importante é que ela possa virar realidade. Mas às vezes fico desapontado por não lembrarem quem começou tudo – afirma Alvaro Gaynicotche.
O começo foi em 1997, através de uma rede de torcedores do Peñarol espalhados pelo mundo que se encontravam via internet. Abel Fialko, fã do clube uruguaio morando em Israel desde 1976, um belo dia lançou a ideia, inspirado pela tentativa de Atenas de organizar as Olimpíadas cem anos depois de ter sido a sede dos primeiros Jogos, em 1896. Morando em Montevidéu, Alvaro Gaynicotche imediatamente se juntou ao projeto e deu início a uma página numa internet com um logotipo feito às pressas.
- Era um site muito simples, como quase todos daquela época. Atualmente, nenhuma grande manifestação acontece sem divulgação na internet. Mas em 1997 era algo ainda novo. Mesmo assim tivemos grande receptividade. Eu já tinha alguma experiência em organizar eventos, fui o responsável por trazer pela primeira vez os Wailers, a banda de Bob Marley para tocar no Uruguai e na Argentina. Primeiro no Uruguai, é claro. Mas uma Copa do Mundo é algo muito maior, não dá nem para comparar – diz Alvaro, rindo.
O dentista diz que a Copa de 1930 serve de inspiração para os uruguaios, já que na época foi preciso construir o Estádio Centenário em menos de um ano para organizar o Mundial. A obra não ficou pronta a tempo e as primeiras partidas tiveram que ser disputadas no Parque Central, campo do Nacional, e em Pocitos, antigo campo do Peñarol. Onde havia o estádio, no bairro do mesmo nome, restou apenas um monumento no local em que foi marcado o primeiro gol da história das Copas. O próprio Alvaro faz papel de guia e aponta para um poste sobre a calçada imitando o ângulo de uma baliza de futebol onde a bola teria entrado. No chão há uma placa, com dia, horário e nome do autor do gol, além de uma mensagem:
”13 de julho de 1930, 3:19 da tarde, Lucient Laurent, França 4 x 1 México, primeiro gol dos Mundiais. Donde duermen las arañas (a versão uruguaia do que no Brasil é chamado de ”onde a coruja dorme”)”.
- Ninguém acreditava que o Uruguai pudesse organizar o Mundial e construir uma obra do tamanho do Estádio Centário. Mas provamos que era possível. Agora podemos fazer de novo – afirma Abel Fialko, via e-mail.
Apesar de se conhecerem há 15 anos, ele e o amigo quase virtual Alvaro Gaynicotche se encontraram pessoalmente apenas uma vez. Foi mais do que suficiente para levar adiante uma campanha que contou com grande divulgação no Uuruguai, mas também enorme desconfiança.
- Numa enquete feita por uma revista uruguaia em 1998 com personalidades do futebol local, a maioria foi cética, dizendo que era utopia, impossível – lembra Abel.
- Nós não tínhamos ideia do tamanho da repercussão até o dia em que recebemos uma comunicação da Fifa dizendo que não poderíamos usar o nome Copa do Mundo e o logo em nosso site por causa de direitos autorais. Em vez de ficarmos chateados, começamos a comemorar. Era a prova de que a Fifa sabia que existíamos – conta Alvaro, que até hoje guarda uma camisa com a primeira marca da campanha.
Em 2005, um político de Montevidéu resolveu encampar a ideia e levá-la adiante. O projeto foi parar no governo uruguaio e a AUF buscou apoio da Conmebol, que deu aval para uma candidatura em conjunto com a Argentina. Em novembro de 2009, a Fifa pela primeira vez citou o projeto 2030 de forma oficial e parabenizou a iniciativa.
- A partir dali, todos passaram a acreditar que é possível. Se até o Catar, que é um país menor do que o Uruguai conseguiu, por que não nós? Eu já vou estar velhinho mas não quero perder essa Copa de jeito nenhum. A única coisa que gostaria é que dessem o crédito devido a Abel Fialko – completa Gaynicotche.






